Na quarta-feira (15), as Forças Armadas do Irã emitiram um aviso sobre a possibilidade de bloquear a navegação no Mar Vermelho, uma área à qual o país não possui acesso territorial, caso os Estados Unidos continuem com sua estratégia de restringir a movimentação de embarcações nos portos iranianos e no Estreito de Ormuz.

A declaração de Teerã, que pode necessitar do suporte de aliados para ser efetivada, surgiu poucas horas após o anúncio do Centcom (Comando Central dos EUA) sobre a “implementação total” do bloqueio. O governo iraniano qualificou essa ação como uma violação do cessar-fogo de duas semanas, que havia sido estabelecido entre as partes para facilitar diálogos mediados pelo Paquistão.

O general Ali Abdollahi enfatizou em um comunicado transmitido pela televisão estatal que “as poderosas Forças Armadas da República Islâmica não permitirão qualquer tipo de importação ou exportação no Golfo Pérsico, no Mar de Omã ou no Mar Vermelho”. Ele acusou os EUA de “provocar insegurança” para as embarcações comerciais iranianas e petroleiros, descrevendo as ações americanas como um “prelúdio” para a infração do cessar-fogo vigente desde 8 de abril.

Com limitações em seu acesso ao Mar Vermelho e debilitadas por ataques constantes das forças dos EUA e Israel nos meses recentes, as ameaças do Irã provavelmente dependeriam da colaboração do grupo rebelde Houthi, do Iémen. Esse grupo demonstrou disposição para se envolver no conflito quando necessário. Equipados com drones e mísseis iranianos, os houthis controlam regiões próximas ao estreito de Bab el-Mandeb, outro ponto crítico que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Um bloqueio nessa área afetaria uma rota vital que representa cerca de 12% do comércio marítimo global, incluindo o transporte de petróleo.

Nos últimos anos, os Houthi mostraram capacidades militares significativas, especialmente após o início do confronto entre Israel e Hamas em 7 de outubro de 2023. O grupo realizou ataques contra o território israelense, localizado a mais de 1.600 km, e conseguiu estabelecer bloqueios navais parciais tanto no Mar Vermelho quanto no Canal de Suez, mesmo sem possuir uma marinha convencional robusta. Isso foi feito através da adoção de táticas inovadoras e utilização de tecnologia bélica como drones e lanchas rápidas. A atuação dos Houthi foi temporariamente contida por uma iniciativa internacional liderada pelos EUA até que um acordo suspendesse temporariamente as hostilidades.

Um bloqueio na região aprofundaria ainda mais a crise causada pela guerra entre a aliança formada por EUA e Israel contra o Irã. A instabilidade no Estreito de Ormuz, pela qual transitava 20% da produção mundial de petróleo e gás natural antes dos conflitos atuais, gerou uma nova onda de aumento nos preços do petróleo no mercado internacional.

A reabertura das rotas marítimas foi fundamental para a frágil trégua alcançada para cessar os combates durante duas semanas. Entretanto, após uma rodada infrutífera de negociações em Islamabad, o presidente americano Donald Trump anunciou um bloqueio aos navios que tentassem acessar Ormuz. Esta decisão foi interpretada como uma tentativa de sufocar financeiramente o Irã e exercer pressão sobre a China, grande importadora do petróleo da região que ainda mantinha acesso a parte dessa produção.

Em suas redes sociais, o almirante Brad Cooper, comandante do Centcom, declarou que o bloqueio imposto por Trump teria sido “totalmente implementado”, interrompendo rapidamente a maior parte das atividades econômicas iranianas em apenas um dia e meio.

“Estima-se que 90% da economia iraniana dependa do comércio internacional via marítima. Em menos de 36 horas desde a implementação do bloqueio, as forças dos EUA conseguiram paralisar completamente todas as transações econômicas marítimas relacionadas ao Irã”, afirmou Cooper.

O bloqueio naval americano é sustentado por uma frota superior a dez navios militares e conta com o maior contingente militar na região desde a invasão ao Iraque em 2003, incluindo tropas especiais e fuzileiros navais.

O ex-capitão da Marinha dos EUA Carl Schuster comentou em entrevista à CNN que o bloqueio não representa exatamente uma barreira física; é provável que muitos navios nem estejam atualmente dentro da região estratégica de Ormuz. No entanto, os equipamentos alocados na área possibilitam perseguir e interceptar qualquer embarcação suspeita.