Nesta quarta-feira (15), o papa Leão XIV declarou que sua viagem à África carrega uma mensagem de união e paz que “o mundo precisa ouvir”, enquanto instou as autoridades de Camarões a refletirem sobre suas “consciências” e a se libertarem “das correntes da corrupção”.
As observações do Pontífice surgem em meio a críticas recebidas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do vice-presidente JD Vance, em relação à sua postura sobre o conflito no Irã.
Recebido por grandes multidões nas ruas, o líder da Igreja Católica, que nasceu nos Estados Unidos, adotou um tom surpreendentemente direto durante seu primeiro pronunciamento no continente africano. Ele se dirigiu a diversas autoridades locais, incluindo o presidente Paul Biya, que tem 93 anos e está no poder desde 1982. O Papa destacou a importância de garantir a segurança com respeito aos direitos humanos e enfatizou que o governo não deve ser uma fonte de divisões.
“A segurança é essencial, mas deve sempre respeitar os direitos humanos”, reafirmou o Papa, ressaltando que as lideranças devem atuar como pontes, mesmo quando a insegurança parece ser predominante.
Em resposta ao discurso do Pontífice, Biya afirmou para as autoridades e diplomatas presentes na capital, Yaoundé, que “o mundo necessita da mensagem de paz” promovida por Leão XIV. Sob sua liderança, Camarões tem enfrentado sérios problemas de corrupção há anos, posicionando-se em 142º lugar entre 182 países no Índice de Corrupção de 2025 elaborado pela Transparency International.
Nos últimos tempos, Biya aumentou suas viagens internacionais para tratamentos médicos ou férias em hotéis luxuosos em Genebra. A oposição critica essas ações como um uso indevido dos recursos públicos. De acordo com estimativas do consórcio internacional OCCRP em 2018, o tempo total das estadias privadas do presidente no exterior ao longo de mais de 30 anos foi de aproximadamente 4,5 anos, custando cerca de 65 milhões de dólares.
Na véspera da chegada do Pontífice ao país, organizações da sociedade civil em Camarões haviam denunciado um “período sem precedentes de repressão” desde as eleições presidenciais realizadas em outubro. Elas pediram a libertação de prisioneiros políticos detidos sem justificativa legal. De acordo com o ativista Herve Nzouabet Kweto da ONG Source de vie, entre os 2.782 prisioneiros registrados pelas entidades civis, 2.630 ainda não foram julgados.
<p“O momento é agora para refletirmos sobre nossas consciências e darmos um passo audacioso à frente. Para que a paz e a justiça possam triunfar, é imprescindível romper as correntes da corrupção”, declarou o Papa.
Mais cedo, durante o voo entre Argélia e Camarões, Leão XIV reiterou sua defesa da convivência inter-religiosa. Ele mencionou sua visita à Grande Mesquita de Argel—considerada a maior da África—e ao local onde nasceu Santo Agostinho de Hipona, uma figura cristã que influenciou sua vocação sacerdotal. Segundo o Papa, interagir com diferentes tradições religiosas sublinha a necessidade urgente de uma coexistência pacífica.
<p“Temos crenças distintas, rituais variados e modos diferentes de viver; no entanto, podemos coexistir em harmonia. Promover essa visão é algo que precisa ser ouvido pelo mundo hoje”, concluiu.
