O governo brasileiro está adotando uma postura cautelosa em relação à possível classificação, pelos Estados Unidos, de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas e ameaças à segurança nacional americana. O receio principal é de que movimentos políticos possam atrapalhar as negociações para o encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Donald Trump na Casa Branca. A previsão é que a reunião seja realizada em abril.
Sob liderança do Itamaraty, a administração petista está compilando informações sobre as ações do Estado adotadas pelo governo Lula para combater o crime organizado no Brasil, como a aprovação da PEC da Segurança e do Projeto de Lei Antifacção, além das operações conduzidas pela Polícia Federal (PF) para desmantelar o braço financeiro das organizações criminosas, como a Carbono Oculto.
Esses dados estão sendo utilizados como argumentos em discussões técnicas entre os dois países para mostrar que o Brasil já emprega diversos mecanismos para combater o crime em sua nação – incluindo a intensificação das leis contra o crime, como o projeto Antifacção que aguarda a aprovação de Lula.
Oficiais do governo envolvidos nas conversas afirmam que, com base nas informações apresentadas aos Estados Unidos, o governo brasileiro defenderá que qualquer intervenção seria redundante em relação ao que já está sendo realizado internamente.
Segundo relatos, a abordagem está sendo feita com “sensibilidade diplomática” para não prejudicar as negociações em andamento para concretizar o encontro entre os dois presidentes.
Para aliados de Lula, um possível encontro entre os dois presidentes seria um ponto positivo para o petista às vésperas das eleições. A visita representaria o ponto culminante da reaproximação entre Lula e Trump, que vem sendo construída desde setembro do ano passado, e terá o combate ao crime organizado como uma parte significativa da agenda a ser discutida entre os líderes.
A relação de proximidade estabelecida desde setembro também impede o governo de reagir de forma mais enérgica diante da ameaça de os Estados Unidos rotularem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Apesar das conversas entre o Itamaraty e o governo americano, membros da base aliada de Lula no Congresso já afirmam publicamente que a classificação do PCC e do CV como terroristas seria mais uma ação internacional da família Bolsonaro contra os interesses do Brasil, já que deixaria o país vulnerável a sanções e interferências dos Estados Unidos em questões internas.
Para rebater a argumentação da oposição de que se opor à classificação das facções criminosas como terroristas seria defendê-las, esses aliados têm destacado que operações recentes da PF, como a Carbono Oculto, têm desarticulado financeiramente as organizações criminosas.
O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), afirma que as facções em questão “são organizações criminosas que buscam lucrar de forma ilícita, não possuem uma ideologia por trás”.
Uczai ressalta que os EUA podem contribuir no combate ao crime por meio do estrangulamento financeiro das atividades criminosas e lembrou que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já enviou informações aos Estados Unidos sobre criminosos que atuam no Brasil a partir do território americano.
