A marca espanhola Sarda, de Barcelona, deu mais um passo importante em sua estratégia de reposicionamento ao lançar uma nova coleção cápsula em colaboração com o festival belga de música eletrônica Tomorrowland. A parceria, apresentada para a temporada Primavera/Verão 2026, reforça o movimento da marca para ir além do universo da moda íntima e da moda praia, aproximando-se de uma proposta mais ampla de moda, lifestyle, festivais e expressão pessoal.

Pelo segundo ano consecutivo, a Sarda se une ao Tomorrowland, um dos festivais mais reconhecidos do mundo, para desenvolver uma cápsula pensada para mulheres que buscam peças ousadas, sensuais e conectadas ao clima de liberdade dos grandes eventos musicais. A colaboração dá continuidade à primeira coleção apresentada em 2025, mas agora avança de forma mais clara em direção a um guarda-roupa que não se limita ao íntimo.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, essa movimentação mostra como marcas tradicionais precisam ampliar seus códigos para dialogar com novos consumidores. “A Sarda nasceu com forte ligação à lingerie e à moda praia, mas percebeu que seu público também busca peças de impacto para viver experiências. Ao se aproximar do universo dos festivais, a marca transforma sensualidade em estilo de vida”, analisa.

Fundada em Barcelona por Andrés Sardá, por volta de 1962, a marca construiu sua reputação no segmento de moda íntima e beachwear de luxo. Em 2008, passou a integrar o portfólio do grupo belga Van de Velde, especializado em moda íntima. Ainda assim, a família Sardá manteve uma ligação importante com a identidade criativa da casa, especialmente por meio de Nuria Sardá, filha do fundador e atual diretora criativa da marca.

Nos últimos anos, a empresa passou por uma mudança estratégica significativa. No início de 2024, foi oficializado o relançamento da marca sob o nome simplificado Sarda, deixando de lado a assinatura “Andrés Sardá”. A mudança veio acompanhada de um reposicionamento: em vez de se manter exclusivamente no campo do luxo tradicional, a marca passou a mirar um segmento premium mais acessível, com maior apelo para um público jovem, especialmente consumidoras millennials.

Segundo Elisabete Bohemio Baccelli, essa atualização de identidade exige equilíbrio. “Reposicionar uma marca com história é sempre um desafio. É preciso preservar o DNA, mas também abrir espaço para novas linguagens. A Sarda parece buscar exatamente esse caminho: mantém a sensualidade e o refinamento, mas amplia sua presença para contextos mais atuais”, destaca.

A colaboração com o Tomorrowland se encaixa nesse processo. O festival representa liberdade, música, fantasia, juventude, comunidade global e forte expressão visual. Ao criar uma coleção para esse ambiente, a Sarda se aproxima de um público que vê a roupa não apenas como vestimenta, mas como parte de uma experiência. Em festivais, a moda funciona como linguagem de identidade, pertencimento e performance.

A nova coleção cápsula é composta por nove designs, incluindo tops, bodies e vestidos. As peças foram produzidas em edição limitada e pensadas como parte de um “guarda-roupa de festival” para a temporada Primavera/Verão 2026. A proposta mistura sensualidade, conforto e impacto visual, mantendo a expertise da marca em modelagem próxima ao corpo, mas expandindo o uso para além do íntimo.

Entre os destaques estão peças com recortes, cores intensas e construção ousada. A coleção está disponível em tamanhos que vão do XS ao XL, tanto na plataforma online do Tomorrowland quanto na loja digital da Sarda. Os preços variam de 50 euros, para uma calcinha de cintura alta, a 90 euros, para um body em rosa shocking, chegando a 200 euros pelo body preto com recortes, apontado como uma das peças mais icônicas da proposta.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, o body traduz com precisão essa nova fase da marca. “O body é uma peça de transição poderosa. Ele pode nascer da lingerie, dialogar com a moda praia, aparecer em produções noturnas e ainda funcionar como peça de festival. Quando a Sarda aposta nesse formato, ela mostra que o íntimo pode sair da camada escondida e assumir protagonismo no look”, afirma.

Essa transição do íntimo para o lifestyle é uma das grandes discussões da moda contemporânea. Peças como corsets, bodies, tops estruturados e lingeries aparentes deixaram de pertencer apenas ao universo privado e passaram a integrar produções urbanas, noturnas, de praia e de festival. A Sarda se insere nesse movimento com propriedade, já que sua história está justamente ligada à construção de peças íntimas sofisticadas.

O diferencial está na forma como a marca adapta esse repertório para novos contextos. Em vez de abandonar sua origem, a Sarda usa sua expertise em lingerie e moda praia como ponto de partida para criar peças com apelo fashion. A coleção para o Tomorrowland não nega o passado da marca; ela amplia suas possibilidades.

A própria Nuria Sardá afirmou que queria que a coleção parecesse instintiva, como algo que uma mulher escolhe para si mesma, e não para outra pessoa. A declaração reforça uma leitura importante: a sensualidade proposta pela marca não aparece como submissão ao olhar externo, mas como expressão de autonomia, prazer e identidade pessoal.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, esse ponto é essencial. “A moda íntima contemporânea deixou de ser pensada apenas como sedução para o outro. Hoje, ela também fala de autoestima, escolha e liberdade. Quando a Sarda diz que a mulher escolhe a peça para si mesma, ela se conecta a uma visão mais atual da feminilidade”, comenta.

A parceria com o Tomorrowland também reforça a importância das colaborações como estratégia de marca. Em um mercado competitivo, collabs funcionam como ferramentas de renovação, alcance e comunicação. Elas aproximam marcas de novos públicos, criam narrativas frescas e geram sensação de exclusividade, especialmente quando lançadas em edição limitada.

No caso da Sarda, o Tomorrowland funciona como uma ponte para o universo experiencial. O festival não é apenas um evento musical, mas uma comunidade visualmente poderosa, com estética própria, público internacional e forte circulação nas redes sociais. Associar-se a esse ambiente ajuda a marca a ganhar visibilidade entre consumidoras que talvez não a conhecessem apenas pelo universo da lingerie de luxo.

Segundo Elisabete Bohemio Baccelli, esse tipo de parceria mostra como moda e entretenimento estão cada vez mais conectados. “Os festivais se tornaram passarelas contemporâneas. As pessoas montam looks pensando em foto, movimento, conforto e impacto visual. Para uma marca, estar nesse cenário é participar de uma conversa cultural muito forte”, observa.

A coleção também acompanha uma tendência maior: a valorização de peças híbridas. Tops, bodies e vestidos podem ser usados em diferentes ocasiões, dependendo do styling. Uma peça pensada para festival pode aparecer sobre calças amplas, com saias transparentes, sob jaquetas, com botas ou acessórios de impacto. Essa flexibilidade aumenta o desejo e permite que o produto dialogue com mais de um momento do guarda-roupa.

A reabertura da loja de temporada da Sarda no complexo Ibiza Gallery, em Ibiza, também reforça essa estratégia de lifestyle. A loja oferece uma experiência de marca completa, com assessoria personalizada, seleção de moda praia e provadores equipados com tecnologia de digitalização para garantir ajuste e conforto.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, Ibiza e Tomorrowland são territórios coerentes para essa nova fase. “Ambos representam liberdade, verão, música, movimento e expressão individual. Ao ocupar esses espaços, a Sarda se afasta da ideia de lingerie restrita ao íntimo e passa a construir uma identidade mais ampla, ligada a momentos de vida”, afirma.

Esse movimento também mostra como marcas de moda íntima vêm buscando ampliar seu papel no guarda-roupa. Lingerie, moda praia e peças de festival compartilham elementos como ajuste ao corpo, sensualidade, conforto e apelo visual. A diferença está no contexto de uso. Ao entender essa conexão, a Sarda encontra uma forma natural de crescer sem parecer deslocada.

A coleção cápsula para o Tomorrowland sinaliza, portanto, uma mudança de rota importante. A Sarda não deixa de ser uma marca especializada em moda íntima e praia, mas começa a se apresentar como uma casa de moda com repertório mais amplo. Esse reposicionamento pode abrir portas para novas categorias, novas colaborações e maior presença em momentos ligados ao lifestyle.

O desafio será manter consistência. Expandir para além do íntimo exige cuidado para não diluir a identidade da marca. A Sarda precisa continuar reconhecível, preservando sua sensualidade refinada e sua qualidade de construção, ao mesmo tempo em que experimenta linguagens mais jovens e ousadas.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, o caminho parece promissor justamente porque parte de uma base sólida. “Quando uma marca entende seu DNA, ela pode expandir com mais segurança. A Sarda tem história, know-how em peças próximas ao corpo e uma estética sensual sofisticada. O desafio agora é transformar isso em linguagem de moda e lifestyle sem perder autenticidade”, conclui.

Com a nova cápsula para o Tomorrowland, a Sarda mostra que está disposta a ocupar novos territórios. A marca transforma o íntimo em expressão pública, leva o beachwear para o universo dos festivais e aposta em uma moda que combina sensualidade, liberdade e experiência. Mais do que uma coleção pontual, o lançamento representa um passo estratégico na construção de uma Sarda mais jovem, global e conectada ao comportamento contemporâneo.