Recentemente terminei a leitura do livro “Curar o ressentimento: o mal da amargura individual, coletiva e política” (Bazar do tempo, 2023), escrito pela psicanalista e filósofa Cynthia Fleury. A obra apresenta uma abordagem impactante sobre o ressentimento, um afeto que tem se destacado em nossa sociedade contemporânea, causando sofrimento e conflitos.

No capítulo que trata da amargura, a autora explora as nuances desse sentimento, relacionando-o ao sabor amargo que surge no contato com a realidade, nas perdas de ilusões e na separação subjetiva. Essa melancolia persistente diante da vida pode evoluir para o ódio, conforme é descrito no texto, que busca tanto descrever a amargura quanto compreendê-la sob uma perspectiva subjetiva e política.

Fleury divide as pessoas em duas categorias sob esse princípio: aqueles que ruminam e aqueles que superam o ressentimento. O ato de ruminação é central em sua argumentação, pois está relacionado a reviver emoções negativas e a raiva contida. A autora destaca a importância do discernimento na vida social, especialmente para os ressentidos, que tendem a interpretar mal as situações que enfrentam.

Segundo Cynthia Fleury, o espírito ativo é aquele que se desafia a se responsabilizar diante do ressentimento, sem cultuar seus vícios. Para ela, a negação da negação é fundamental para reconhecer a própria subjetividade diante da vida. Ela também faz uma conexão entre ressentimento e humanismo, apontando como a perda desse horizonte pode contribuir para o surgimento desse sentimento.

A autora ainda discute a relação entre o ressentimento e as pulsões humanas, destacando a importância do autodomínio e da sublimação. Ela também aborda o impacto da organização individual na sociedade, relacionando o surgimento do fascismo não apenas a fenômenos macroestruturais, mas também ao cotidiano e às relações interpessoais.

Por fim, Fleury reflete sobre como enfrentar a vida a partir do ressentimento, abordando questões temporais, espaciais e linguísticas. Ela aponta para a possibilidade de transformar a amargura em algo mais fluido e aberto, conectando-a com a imensidão do mundo e vivendo-a de forma mais intensa e significativa por meio da metáfora do mar.

Referência

FLEURY, Cynthia. Curar o ressentimento: o mal da amargura individual, coletiva e política. 1ª ed. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2023.