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“O Comércio Local Não Pode Ser Refém de Algoritmos”: Os Desafios do Delivery no Brasil Sob a Ótica de David Gonçalves

Em entrevista exclusiva, o CEO da Come Come Delivery analisa o esgotamento dos pequenos restaurantes com as taxas abusivas dos grandes marketplaces e explica como uma plataforma focada em vendas — e não em burocracia — está a redefinir a relação entre tecnologia e lojistas no interior do país.

por Publicado: 20/10/2026 14:17

SÃO CARLOS (SP) — O setor de entregas rápidas no Brasil vive um momento de clara bifurcação. Se por um lado a conveniência do consumidor se consolidou como um caminho sem volta, por outro os donos de bares, cafetarias e restaurantes enfrentam um cenário de asfixia financeira. Comissões que chegam perto dos 30%, retenção de tesouraria que demora semanas a ser libertada e regras algorítmicas que obrigam a descontos pesados transformaram o sonho do canal digital numa enorme dor de cabeça para milhares de pequenos comerciantes.

Nascida no interior paulista com a proposta de quebrar essa lógica predatória, a Come Come Delivery tem expandido a sua presença nacional com um modelo que une tecnologia própria, taxa justa e gestão próxima. Nesta entrevista, David Gonçalves, Diretor Executivo (CEO) da marca, faz um raio-x dos principais entraves do setor de restauração e detalha a visão da empresa para devolver a rentabilidade e a soberania ao comércio de proximidade.

A Entrevista

Redação: David, olhando para o cenário nacional de restauração e retalho urbano, quais são hoje os maiores estrangulamentos e desafios estruturais que o pequeno e médio comerciante enfrenta ao operar no delivery?

David Gonçalves: O principal desafio hoje é a perda brutal de margem líquida. O setor da alimentação tradicionalmente trabalha com margens que variam entre 12% e 20%. Quando uma grande plataforma entra a cobrar 25%, 27% ou até 30% de comissão sobre a venda bruta, a conta simplesmente não fecha. Para conseguir estar presente na aplicação, o lojista muitas vezes precisa de praticar um preço artificialmente inflacionado ou cortar custos essenciais de matérias-primas e equipa.

O segundo grande estrangulamento é a dependência algorítmica: o comerciante tornou-se refém de um sistema no qual não tem controlo da sua própria clientela, não tem acesso aos dados para fazer um pós-venda adequado e precisa de aceitar imposições de promoções forçadas para não ser “escondido” nas pesquisas. A cozinha trabalha no limite, a faturação bruta parece positiva, mas no final do mês não sobra dinheiro na conta de quem acorda cedo para cozinhar.

Redação: Diante desse diagnóstico, qual é a visão diferenciada que norteia a Come Come Delivery em relação ao mercado tradicional de aplicações?

David Gonçalves: A nossa visão parte de um princípio simples: a aplicação deve ser um acelerador do negócio local, e não o sócio maioritário do lojista.

Enquanto as grandes corporações olham para o restaurante como um mero ponto de captação de receita financeira e os sistemas burocráticos se focam apenas na faturação e controlo de stocks, nós posicionamo-nos de forma muito clara: somos uma máquina de marketing e alavanca de vendas para o comerciante. Toda a tecnologia que desenvolvemos existe para colocar dinheiro líquido em caixa, com transparência total e respeito pela autonomia do estabelecimento. Acreditamos que uma relação comercial saudável só perdura se ambas as partes ganharem de verdade.

Redação: Na prática, o que a plataforma oferece para resolver essas dores e tornar a operação do lojista mais lucrativa e segura?

David Gonçalves: Desenhámos uma proposta que ataca diretamente cada um desses pontos de atrito:

  1. Comissão justa e previsível: A nossa taxa padrão praticada pelos operadores locais é de apenas 10%. É uma comissão limpa, sem surpresas nem custos ocultos, que devolve cerca de 15% a 20% de margem direta para a tesouraria da loja em comparação com os concorrentes.

  2. Recebimento ágil e seguro: O lojista recebe as vendas via Pix instantaneamente e repasses regulares em 48 horas, eliminando a angústia de esperar 30 dias para cobrir a compra de carnes, laticínios ou embalagens. O nosso sistema conta ainda com split automatizado, blindando o parceiro de qualquer confusão contabilística ou bitributação.

  3. Liberdade total de preços: Aqui não existe qualquer imposição. O comerciante não é obrigado a disponibilizar cupões suportados pelo próprio bolso nem a queimar margem em listas promocionais para ter visibilidade. Vende pelo seu preço justo.

  4. Ferramentas de retenção (CRM e Cashback Exclusivo): Não dispersamos os clientes da casa. O sistema conta com CRM nativo e um mecanismo de cashback em que o saldo acumulado pelo consumidor só pode ser utilizado para novas compras no próprio estabelecimento dele, gerando fidelização real sem custos contínuos de publicidade.

Redação: Recentemente, colocaram na rua a campanha batizada de “Proposta Irresistível”. Na prática, o que torna essa oferta tão diferente do que o mercado costuma apresentar aos restaurantes?

David Gonçalves: A campanha recebeu esse nome porque desenhámos uma proposta na qual o comerciante simplesmente não tem motivos racionais para dizer ‘não’. Ela elimina a 100% a barreira de entrada e o risco financeiro do lojista.

No modelo tradicional, para começar a vender online ou aderir a uma plataforma estruturada, o comerciante tem de pagar taxas de adesão, custos de instalação ou mensalidades fixas pesadas que são cobradas mesmo que não venda absolutamente nada. Na Proposta Irresistível, quebrámos essa lógica: a taxa de adesão é zero e não existe mensalidade obrigatória. O restaurante só paga a comissão — que é a mais reduzida e equilibrada do mercado, fixada em 10% — se efetivamente vender.

Além disso, asseguramos o recebimento imediato por Pix e disponibilizamos as ferramentas de atração, como o cashback próprio e o suporte humano de proximidade. Em suma: o comerciante não despende capital inicial para entrar, não tem custos fixos associados à plataforma, preserva a fatia substancial da margem dos seus pratos e conta connosco para alavancar as vendas. É um modelo de risco zero onde apenas ganhamos se o lojista faturar primeiro.

Redação: Um aspeto de destaque no vosso modelo é a capilaridade da logística, que vai além dos restaurantes. Como funciona essa dinâmica no dia a dia da cidade?

David Gonçalves: Esse é outro grande vetor de diferenciação. Desenvolvemos uma estrutura logística híbrida em quatro camadas. O restaurante pode utilizar os seus estafetas habituais de forma independente, pode integrá-los na nossa aplicação com localização por GPS em tempo real para os clientes, ou pode acionar os estafetas parceiros da nossa frota partilhada.

E fomos além do setor alimentar: criámos o sistema de Entregas Avulsas. Uma loja de vestuário, uma ótica, uma farmácia ou uma casa de peças para automóveis pode solicitar a nossa rede de estafetas diretamente através do painel de controlo para efetuar uma entrega expresso em qualquer ponto da cidade, sem precisar de cadastrar uma montra de produtos na app. Isto dinamiza o ecossistema urbano: o comerciante obtém frete rápido sob pedido, o estafeta tem rotas ativas ao longo do dia inteiro e a economia do município circula de forma mais produtiva.

Redação: Para terminar, qual é a mensagem que deixa aos comerciantes locais que ainda mantêm reservas ou receios em relação à transição para novas alternativas digitais?

David Gonçalves: Digo ao comerciante: analise a sua folha de cálculo e verifique quanto do seu esforço tem servido para financiar grandes estruturas corporativas longe da sua terra. A tecnologia não tem de ser uma portagem pesada; pode e deve ser uma parceira de expansão.

Na Come Come Delivery, não cobramos taxas de adesão nem mensalidades desmedidas para a abertura da loja. O risco é inexistente e dispõe de um profissional da sua própria cidade, com contacto direto no WhatsApp, a acompanhar a sua operação diariamente. O setor de entregas no Brasil carece de proximidade humana e justiça económica — e é rigorosamente essa transformação que estamos a consolidar praça a praça.

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