Cultura

A transformação da sombra em matéria tátil ganha destaque na arte contemporânea

A transição do design gráfico para as artes plásticas pauta a produção visual de Diego Carneiro, que utiliza o carvão e a encáustica crua para criar densidade psicológica.

por Publicado: 07/10/2026 18:08

A excelência na comunicação visual objetiva pode servir como uma base sólida para, posteriormente, ser desconstruída em favor da expressão autoral e subjetiva. Após mais de 20 anos atuando como diretor de arte e designer gráfico na publicidade, período marcado pelo reconhecimento e por prêmios internacionais, o deslocamento definitivo do artista visual Diego Carneiro para as artes plásticas ocorreu em 2022. 

O caminho foi inicialmente pavimentado pela xilogravura, técnica que ajudou a estruturar o foco atual da produção fundamentado na pintura a óleo e no carvão vegetal. Esse movimento representou o abandono de mensagens comerciais diretas em prol de um mergulho focado na memória, no labor rural e no inconsciente. 

A grande mudança de paradigma visual concentrou-se na forma de enxergar a sombra, que deixou de ser encarada como uma mera ausência de luz para se tornar uma entidade com peso físico e densidade psicológica. O refino desse novo olhar foi impulsionado por cursos de poética, técnica de retrato, História da Arte no Museu da Imagem e do Som (MIS) e oficinas imersivas de desenho e observação.

A encáustica crua e a composição de anatomias oníricas

A pesquisa visual funde a tradição figurativa com a liberdade da linguagem surrealista, absorvendo influências da carga dramática de pintores contemporâneos. No cotidiano do ateliê, os materiais clássicos — como o carvão e a tinta a óleo sobre papel ou tela — misturam-se a elementos orgânicos e altamente táteis. 

A utilização de encáustica crua, produzida a partir de cera de abelha e resina damar, confere uma textura bruta aos suportes. O grande diferencial técnico é a fisicalidade da matéria, onde a escuridão não é apenas desenhada com o pigmento preto, mas transformada em uma substância atmosférica palpável através do pó do carvão. Ao tratar o ato do apagamento com o mesmo peso estrutural do traço afirmativo, a lógica cede espaço para composições oníricas e anatomias improváveis, criando uma simbiose entre a tradição clássica da pintura e a aspereza rústica dos materiais.

O mercado colecionador e o marco visual em escala de cinza

A densidade psicológica e a autonomia intelectual presentes nas obras direcionam o trabalho para um circuito exigente, formado por colecionadores de arte contemporânea, galeristas, curadores e admiradores da estética do claro e escuro. A consolidação dessa profunda investigação sobre a presença física da sombra, o apagamento e a força da matéria bruta materializou-se na exposição “Trabalho de Sombra”, um projeto estruturado rigorosamente em escala de cinza que atua como o grande marco definidor desta fase criativa.

O circuito institucional e a imersão no ateliê mineiro

O contato do público com essa atmosfera onírica segue em expansão no calendário cultural oficial. As obras compõem a exposição coletiva “Imprudentemente poéticos”, sediada no Centro de Arte Popular, em Belo Horizonte, aberta à visitação entre os dias 25 de setembro e 22 de novembro. Além do circuito de mostras institucionais, o mergulho direto na matéria-prima e no processo criativo das telas pode ser vivenciado de forma permanente. 

O espaço de criação e o acervo encontram-se abertos à visitação contínua no ateliê situado na Travessa Francisco Alves, 35, no centro de Gonçalves, no Sul de Minas Gerais. O portfólio completo com o desenvolvimento das anatomias a carvão e os registros das exposições está documentado no canal oficial de Diego Carneiro no Instagram [@diegocarneiro.art].

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